O que aprendi com a crise dos 30 anos

Antes de fazer 30 anos, eu estava cheia de questões. Para quem ainda não passou dessa idade, pode parecer um marco enorme não apenas no sentido quantitativo, mas no de conquistas, de modo de vida e tudo aquilo que a sociedade diz que devemos ter neste momento da vida.

Crise dos 30 anos: temores e preocupações irracionais

O que mais me incomodava era ter trabalhado por “tanto tempo” e não estar próxima de alcançar os objetivos que, desde o ensino médio, fui ensinada a almejar - casa, carro, carreira e casamento. A cada ano, eu ficava mais consciente do quão difícil seria comprar ou simplesmente financiar uma casa.

Embora eu gostasse do meu trabalho, fazer a mesma coisa todo dia estava se tornando cada vez mais maçante. Afinal, a vida era só isso? Ao mesmo tempo, não podia deixar de trabalhar e não sabia para qual caminho seguir, ciente de que o mercado de trabalho para a minha área não era promissor.

Eu queria conquistar tudo por minha conta, assim como nos filmes estadunidenses os quais cresci assistindo: De Repente 30; A Agenda Secreta do Meu Namorado; Grande Menina, Pequena Mulher; O Diário de Bridget Jones; etc, etc. Todos esses filmes retratam mulheres independentes vivendo suas vidas na cidade grande.

Tinha também séries como Gilmore Girls, Friends, Will and Grace e Ugly Betty cuja mensagem era parecida, mas dentro de seus universos próprios. O fato de não conseguir chegar lá sozinha me aterrorizava.

A influência não era apenas midiática. O papo de empreendedorismo começou a ganhar força quando eu estava na quinta série. A partir de então, todo mundo falava sobre isso e como empreender, fazer sucesso e ter sucesso (seja lá o que isso significasse) era imprescindível.

Estude inglês para ter mais oportunidades de trabalho. Passe no vestibular de uma faculdade pública para ter empregos melhores. Vista a camisa para crescer e se destacar na empresa. Tenha uma família formada aos 30 anos. Caso contrário, você será um fracasso.

de repente 30 ok

A explosão das redes sociais foi a cereja no bolo. Assim que se tornou possível acompanhar a vida de pessoas conhecidas e desconhecidas à distância, as comparações começaram.

Foi quando saíram as primeiras pesquisas sobre como as redes estavam afetando a autoestima e saúde mental dos usuários de maneira negativa. Algumas poucas decisões foram tomadas, como esconder o número de likes em fotos, o que, bem, não mudou a vida de ninguém para melhor, não é mesmo?

Naquela época, as big techs ainda fingiam que se importavam.

Todos esses fatores se tornaram um ingrediente da minha crise dos 30 anos antes mesmo de eu completar 30 anos. Nos meses antecedentes ao meu aniversário, cheguei a pensar que a vida estava acabada. Se eu não tinha conquistado nada daquilo, então estava muito tarde para fazê-lo.

Pessoalmente, fui ensinada a fazer e almejar tudo rápido. Você precisa aprender isso para agora. Você precisa desempenhar essa função perfeitamente para agora. Você precisa tomar essa decisão difícil e que talvez exija mais tempo de reflexão para agora.

Essa pressão maluca me levou a viver inconscientemente em um ritmo acelerado e, quando os resultados não apareceram, era impossível não ficar chateada e assumir que o problema era eu.

Crise dos 30 anos: depois do fatídico aniversário

mulher plena

Hoje, estou com 31 anos.

Eu já tentei escrever sobre a crise dos 30 algumas vezes. As minhas ideias logo após o meu aniversário eram bem diferentes das que compartilho neste post. Acontece que a vida não acaba após os 30 anos. Chocante, eu sei!

Meses depois do dia 25 de julho, reconquistei um vigor por novas experiências de vida. Comecei a pensar em todas as coisas que ainda queria fazer e os objetivos que tinha traçado para o meu ‘eu’ do futuro quando era mais nova.

Um deles é estudar psicologia.

Aos 18 anos, eu determinei para mim mesma: “vou fazer jornalismo agora e, com 30 anos, faço psicologia”. Na época, pensava em fazer essa graduação simplesmente porque gostava da área, mas, hoje, penso em atuar nela de verdade. E, veja só, estou fazendo exatamente o que a minha versão mais jovem pretendia.

Quando me dei conta disso, refleti sobre todas as preocupações que rondaram a minha mente por meses, anos, antes dos 30. Foi então que percebi que fui ensinada a almejar e a viver em um mundo estático, o qual não existe mais.

O breve momento de otimismo acerca do futuro no início dos anos 2000 acabou faz tempo, mas, até hoje, as pessoas (não todas, é claro) e a mídia ainda carregam as crenças construídas naquele período.

Nos últimos anos, passei a buscar relatos de pessoas com idades e preocupações parecidas por curiosidade. E, como já era de se esperar, muita gente sente que chegou ao fim. É uma era de pessimismo, com algumas pitadas de distrações digitais em formato de vídeos de fofoca do Tiktok e séries de plataformas de streaming e ocasionais momentos de otimismo.

Mas é claro que a minha experiência corresponde a uma bolha muito pequena e seleta.

O que, de fato, quero dizer é o seguinte: essas crenças e normas sociais que direcionam a nossa vida são produtos do seu tempo. São criadas, impostas e cobradas pela própria sociedade e não levam a realidade e individualidade de cada um em consideração. Ainda vivemos em um mundo feito por poucos e para poucos.

E, nós podemos ver todos os dias (em lutas pessoais e coletivas, notícias, produtos culturais) o quanto é difícil encaixar um pouquinho de todos que habitam nele.

Isso não significa, no entanto, que não devemos tentar, que você e eu não devemos construir crenças, modos de vida e normas pessoais mais adequadas à nossa personalidade, valores e desejos.

Crise dos 30 anos: os próximos capítulos

girassois

Minha psicóloga sempre diz: “quando você não se conhece e não sabe o que quer, o mundo vai dizer por você”.

Eu me considerava uma pessoa pouco influenciável e acredito que ainda sou em relação a coisas que estão mais na minha cara, como, por exemplo, gosto musical, estilo de roupas ou gênero de filmes.

Mas, percebi que sofri muita influência externa e adotei o que era do outro como meu. É impossível crescer em uma cultura sem absorver aspectos dela, afinal.

Por conta disso, os meus 30 e 31 anos têm sido dedicados a um mergulho mais profundo na alma.

Fiz vários exercícios de autoconhecimento em que detalhei minhas crenças, valores, objetivos, qualidades e defeitos só para tentar separar o que é meu e o que achava que era meu.

A necessidade insana por produtividade e de cortar tudo o que não é considerado “útil” da sua vida, como mencionei neste post, é um exemplo do que adotei do meio, mas definitivamente não quero para minha vida.

Aliás, o que eu quero é, na verdade, bem simples: uma vida tranquila onde a beleza vive nas pequenas coisas. Todos os dias, pratico esse olhar mais atento aos detalhes e as pequenas alegrias do cotidiano, mesmo que elas ainda não me despertem muita emoção, confesso. (Maaas ainda admiro e quero viver a vida de mulheres independentes de sitcoms e filmes do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, o que, até certo ponto, consegui)

Posso afirmar, então, que a crise dos 30 anos é uma perda de tempo, porém, um evento canônico esperado em uma sociedade cheia de cobranças e pressões externas (e às vezes internas) para alcançar um ideal de indivíduo e de vida bastante específico, o qual não se encaixa no universo íntimo de todas as pessoas.

Sendo assim, acredito que a melhor coisa a fazer é refletir sobre esse momento da vida. Por que essa virada causa tanto sofrimento? Quais são as expectativas não cumpridas? O que pode ser feito para ser feliz aos 30 anos? Aos poucos, o imediatismo dos 20 anos dá lugar a uma tranquilidade gostosa, acompanhada por uma visão mais pé no chão do mundo.

com amor,
Nah Souza
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