Recuperando o que quase perdi: Sobre não monetizar um hobby

O capitalismo comeu o meu cérebro e agora eu penso que todo hobby deve virar algo lucrativo.

Caso contrário, não faz sentido dedicar tanto tempo a ele.

Eu nem sempre pensei assim. Na minha infância e adolescência, eu tive passatempos comuns a quem tem todo o tempo do mundo em suas mãos.

Mas, depois que a minha cabeça começou a se encher de preocupações da vida adulta - faculdade, trabalho, boletos, impostos, aluguel, etc -, alguma coisa mudou. Não sei bem quando passei a ver hobbies como um desperdício de tempo, mesmo que me façam bem.

Nos últimos anos, o máximo que faço é tentar criar um hábito de leitura, mas falhar miseravelmente, e consumir conteúdo nas redes sociais, um hábito que pode ter sido potencializado durante a pandemia.

Naquele período, fiquei realmente trancada em casa, trabalhando home office o máximo de tempo que conseguia, pois estava na “fase de fazer dinheiro”, segundo a minha própria lógica deturpada por influências externas.

Tudo o que isso me causou foi um burnout que até hoje me incomoda (neste mês, fiz um exame de sangue e meu cortisol ao acordar está em 43. Você sabe o que isso significa? Um monte de problema de saúde mental e física. Eu passei dos 30 anos e eles são muito mais evidentes agora) e dúvidas acerca do caminho correto, ou mais adequado no momento, a seguir.

Eu vejo as redes sociais e confirmo que muitas pessoas, brasileiras e gringas, pensam dessa maneira e muitas estão começando a ficar cientes disso.

E é uma lógica difícil de escapar, essa de transformar tudo em lucro. Ela está presente em todos os segmentos da nossa sociedade, desde a escola até o ambiente de trabalho.

Uma das razões (pois têm muitas outras) pelas quais as crianças estarem enfrentando estresse e ansiedade em uma tenra idade é justamente essa obsessão com produtividade e aprender o máximo possível de habilidades sem respeitar o tempo e as preferências de cada um.

"Cerca de 70% das crianças entre 5 e 13 anos demonstram sinais de estresse" - pesquisa do portal médico estadunidense, WebMD.

Sendo assim, quase todo mundo vive submerso nessa lógica que rouba as características que tornam um hobby prazeroso, estimulante, feliz.

Felizmente, descobri isso há alguns meses, mas tenho dificuldade de largar a mão dessa crença maléfica que não me deixa escrever por prazer, somente para trabalho. Fui redatora para a internet por seis anos. Após um tempo, o que aparentava ser uma carreira dos sonhos para o meu ‘eu’ de 25 anos, se tornou uma fonte de cansaço mental e esgotamento para o meu ‘eu’ de 31 anos.

Desde que deixei de trabalhar com isso em agosto deste ano, tenho tentado recuperar o prazer de escrever somente por ser divertido e libertador para uma pessoa que começou a trilhar o caminho da escrita aos 13 anos.

Sem fins lucrativos.

Não quero pensar em transformar nada em fonte de renda. Vou deixar o trabalho, que hoje, para mim, é um estágio na área de psicologia, para o trabalho.

Esse dilema pode parecer bobo para quem não passa por isso, mas, para quem viveu sob influência de uma crença tão incômoda, é bem cansativo.

Graças a ele, no entanto, percebi como é trabalhoso desapegar de crenças que não servem mais para nós, ou até que nos causam algum mal. O cérebro costuma funcionar no modo “economia de energia”, sabia? Ele prefere fazer os mesmos caminhos ao explorar novos para não gastar energia.

Além disso, dependendo das suas experiências de vida, valores e crenças, o caminho da mudança pode parecer perigoso, o que ativa os mecanismos de defesa do cérebro para evitar a ameaça.

Às vezes, isso acaba levando pessoas a permanecerem em situações que lhe causam mal, como relacionamentos abusivos ou estilos de vida nocivos à saúde. É ruim, mas é familiar, conhecido.

O cérebro sabe lidar com situações cômodas. Logo, para mudar basicamente qualquer coisa na sua vida, é preciso aprender a ser resiliente do zero e desenvolver novos mecanismos de defesa. Dessa vez, mais saudáveis e apropriados à realidade. Isso porque a tendência é repetir comportamentos aprendidos na infância (principalmente) e adolescência para lidar com situações de lá atrás e não do presente.

violino

Para mim, essa reprogramação tem a ver com esse blog - e outros projetos de escrita que, por enquanto, serão um segredo entre mim e meu editor de texto - e todas as coisas que eu gostaria de falar, de explorar e de compartilhar sobre o mundo e, consequentemente, sobre mim mesma.

Uma delas é tentar viver no capitalismo tardio sem pirar.

Se você gosta dessa lógica de produtividade e lucro a todo custo, de ficar rico e ostentar nas redes sociais, de acumular dinheiro numa conta do banco para sei-lá-o-que em vez de usá-lo, tudo bem. Cada um é cada um, não é mesmo?

Eu nunca tive essa ambição, pois valorizo e quero outras coisas para minha vida. Fui ensinada a ser desapegada de coisas materiais e isso me levou a viver de várias maneiras diferentes ao longo desses 31 anos e essa é uma crença com a qual quero me reconectar e carregar para o resto da minha vida, ao contrário de crenças que descolorem as minhas paixões, deixando-as cinzas, frias e tristes.

"O efeito de superjustificação ocorre quando um incentivo externo esperado, como dinheiro ou prêmios, diminui a motivação intrínseca de uma pessoa para realizar uma tarefa. Antes da recompensa, uma pessoa pode pensar: "estou fazendo isso porque gosto". Quando um incentivo externo é inserido, ela pode chegar a uma nova conclusão: "estou fazendo isso porque estou sendo pago". Essa mudança pode minar o prazer de executar a tarefa" - Psychology: The Science of Behaviour.

Então, pensando em tudo isso e outras coisinhas mais, eu decidi, enfim, dar vida ao “Do Amargo ao Doce”. E acredite, demorou muito. Esse domínio está ativado há mais de um ano no meu plano de hospedagem, mas até então, eu não estava com a cabeça e a ambição certa para utilizá-lo.

Talvez tenha chegado a hora.

com amor,
Nah Souza
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